Uma característica que vem marcando o Brasil, nesse período que se iniciou no Século XXI, é o tal “pleno emprego” ou desemprego friccional. É uma taxa de emprego em um nível muito alto, em que aqueles que estão desempregados estão, na verdade, em uma transição curta (para outros empregos), ou são pessoas que realmente não atendem mais às necessidades do mercado de trabalho.

O que levou o Brasil a esse período de aquecimento econômico (que está se encerrando e, dizem alguns, já se encerrou) foram, basicamente, três fatores: O boom de commodities da China, a flexibilização do crédito ao consumidor e o tal do “pleno emprego”.

É até possível argumentar que o pleno emprego acabou sendo uma consequência dos outros dois fatores, mas isso não importa no momento.

O fato é que o “gás” acabou e estamos voltando a ver o desemprego presente em nossas vidas. Notícias de setores inteiros fazendo demissões em larga escala estão voltando a ser comuns, e isso me lembra uma época particularmente difícil no Brasil: o final dos anos 80 e começo dos anos 90.

Quem já acompanhava a economia e o mercado de trabalho naquela época (agora é aquela hora em que a gente entrega a idade…), provavelmente deve ter memórias vívidas de quando se procurava emprego nos classificados dos grandes jornais, e alguns desses jornais faziam pesquisas que mostravam quanto tempo, em média, uma pessoa levava para se recolocar. Não era incomum ver cargos e funções cujo tempo médio de recolocação era superior a um ano!

Pois bem, ESSE é o Brasil de verdade que eu conheci. Um país onde é difícil fazer negócios, as empresas relutam em investir e o desemprego é o principal medo da população. Esse Brasil dos últimos doze ou treze anos é falso – aqui nunca foi um país fácil de fazer negócios e uma “terra das oportunidades” para todo mundo (obviamente alguns encontram grandes oportunidades aqui, mas a realidade da maioria das pessoas é bem menos romântica). Esse período de bonança e de pleno emprego foi, ao que tudo indica, uma coisa passageira, uma “fase”. Mas, naturalmente, aqueles que entraram no mercado de trabalho nesse período devem ter desenvolvido uma percepção de que “sempre foi assim”, e isso é perigoso, pois muitos confiam que vão arrumar um novo emprego “no dia seguinte” se perderem o atual.

Pois bem, parece que vamos voltar à dura realidade e o desemprego, muito provavelmente, deverá voltar a ser o maior medo do brasileiro médio.

E como se preparar para um cenário em que o desemprego volta a ser um fantasma, assombrando a maior parte das pessoas? Podemos agora falar de empregabilidade (importante), de desenvolver uma postura empreendedora (muito importante) e de fazer um bom networking (extremamente importante), mas, ao menos por hora, vamos nos limitar à preparação financeira.

Uma das regrinhas básicas do mundo das finanças pessoais (e que foi esquecida por muita gente nesse período de pleno emprego) é que devemos ter um volume de reservas financeiras que nos permita viver, com alguma dignidade e sem prejudicar o padrão de vida, por um período relativamente longo. A recomendação usual é que se tenha uma reserva que permita manter a vida por pelo menos um ano, mas, dependendo de uma série de fatores, ela precisará ser maior. Não é novidade nem surpresa para ninguém que pessoas com funções especializadas, mais idade e salário maior acabam, em média, levando mais tempo para se recolocar. E se voltarmos àquela realidade dos anos 80 e 90, é bom que a reserva seja significativamente maior que isso, pois, se um ano é a média, isso significa que algumas pessoas estão se recolocando na hora, enquanto outras estão levando dois anos ou mais…

A outra diz respeito às dívidas: De nada adianta ter reservas e estar endividado ao mesmo tempo. Aqui neste blog (e em muitos outros) estamos sempre batendo na mesma tecla de que não devemos ter dívidas que cobram juros altos ao mesmo tempo em que mantemos investimentos que dão retornos baixos. É preciso eliminar as dívidas e rapidamente!

E agora o mais importante. Como em qualquer preparação, a gente não deve deixar para se preparar quando o fato está acontecendo. As coisas podem estar muito bem no momento e não há razão para temer, mas quando o chão começa a se abrir debaixo de nossos pés, aí costuma ser um pouco tarde para fazer alguma coisa.

Eu torço para que a realidade tenha mudado (eu e meu eterno otimismo…) e que a regra agora seja o desemprego baixo, com episódios de desemprego maior aparecendo como “fases” (ao contrário do passado, onde o alto desemprego era a regra e o país, de tanto em tanto tempo, fazia um “voo de galinha”). Mas, infelizmente, acho que não será desta vez.

Por isso, devemos seguir o 9º axioma do clássico livro “Os Axiomas de Zurique”, aquele que diz que “devemos esperar o melhor, mas temos que saber como lidar com o pior”. Coloque ordem na casa, elimine as dívidas, enquadre seu padrão de consumo à sua renda e comece a fazer reservas financeiras, caso ainda não as tenha. Se tiver a percepção de que tudo está bem e não há nada a temer, fique de olho, pois a sensação de conforto é nossa inimiga em cenários incertos.  Torça (como eu torço) para que tudo dê certo, mas comece sua preparação para o pior AGORA.