“Autoconhecimento através de números”. Este é o lema do Quantified Self, um movimento que tem suas origens nos distantes anos 70, e que começou a ganhar corpo de forma mais intensa nos últimos anos.

Em meu artigo anterior, “Aquilo que não se pode medir, não se pode melhorar”, mencionei, no final, que falaria um pouco sobre esse tal Quantified Self, que, traduzido de uma forma literal, seria algo como “O Eu Quantificado”, mas vou usar o termo original em Inglês ou então “autoquantificação”, pois soa menos estranho aos meus ouvidos.

Há bastante tempo, curiosos, hackers, nerds, entusiastas da saúde e malucos em geral investem na coleta de dados sobre si mesmos para fazer análises e identificar tendências, mas foi apenas nos últimos anos, com a proliferação de smartphones, aplicativos de quantificação pessoal e alguns aparelhos dedicados, que a coisa realmente tomou corpo e virou uma espécie de movimento organizado, que tem até um site próprio (com conteúdo muito interessante, que pode ser visto clicando aqui) e grupos que se reúnem periodicamente para trocar conhecimento e experiências (não há ainda um grupo em São Paulo. Se interessou? Fale comigo…).

Existem adeptos do Quantified Self coletando dados e analisando as coisas mais inimagináveis. Talvez não surpreenda o fato de que o tema “saúde” seja o mais popular, mas existem pessoas quantificando coisas como o próprio sono, desempenho esportivo/profissional, interações sociais, estudos e (por que não?) finanças. Tudo isso para identificar padrões, correlações e tentar descobrir como melhorar a si mesmo baseado em dados reais, não em intuição, “achismo” e subjetividade.

Mas agora que já apresentei, ainda que superficialmente, o que é o Quantified Self, vamos deixar de lado aqueles temas que fogem do escopo deste blog e falar um pouco de finanças e de como podemos quantificá-las (e melhorá-las).

tape-measure-269293_1280A base da autoquantificação “de qualidade”, seja em finanças ou em qualquer outra área da vida, são os dados. Sem dados de boa qualidade, não podemos fazer boas análises e, consequentemente, não podemos saber onde e como melhorar. Isto significa (e aqui começa a parte chata, porém importante) que precisamos seguir aquela receita básica que dez em dez especialistas em finanças pessoais recomendam, mas ninguém segue: anotar todas as despesas e receitas.

O “local” onde os dados são armazenados não é algo tão importante, contanto que não estejam em sua memória (quem guarda informações na memória, não guarda em lugar nenhum). Pode ser numa planilha, num aplicativo ou mesmo no velho e bom caderninho, mas é preciso que essas informações estejam em algum lugar de fácil acesso, pois elas serão manipuladas e analisadas. Aquilo que está na memória não será analisado; será esquecido…

Começando pelas receitas. Muita gente nem sabe, efetivamente, o quanto ganha por mês (que tal assistir a este vídeo aqui do Portal EXAME?), e outras pessoas têm uma receita que oscila ao longo do ano, muitas vezes seguindo um certo padrão. A pessoa que quantifica e analisa os dados de receita pode identificar esses padrões e, talvez, até mesmo maximizar seus ganhos, entendendo o que faz com que a receita seja maior em alguns meses do que em outros.

No caso das despesas, as coisas começam a ficar realmente interessantes. Não só porque a identificação de padrões é mais fácil, mas também porque temos muito mais controle sobre nossas despesas do que nossas receitas (eu não conheço alguém que consiga aumentar seus ganhos “quando quer”, mas qualquer um consegue cortar despesas com algum esforço). Então alguns verdadeiros “milagres financeiros” começam a acontecer quando passamos a entender nossas despesas e nossos padrões de gastos – nos tornamos mais conscientes e passamos a gastar de forma mais responsável e eficiente.

Para aqueles que se convenceram de meus argumentos (lendo este artigo e o anterior) e pretendem se aventurar na quantificação das próprias finanças, deixo algumas dicas:

1) Já foi falado, mas sinto que é importante falar de novo: Não confie em sua memória JAMAIS! Use alguma ferramenta… QUALQUER ferramenta, mas não a memória!

2) Comece simples. Existem muitas ferramentas fantásticas, com muitos recursos, e é comum cairmos na tentação de escolher uma ferramenta excessivamente complexa, que vai demandar um grande investimento de tempo para aprendermos a usá-la e, talvez, os dados gerados por ela nem sejam tão relevantes para o nosso dia a dia. Isso acaba virando um fator desmotivador, então escolha uma ferramenta simples. De preferência TÃO simples que você não poderá ter uma desculpa para não usar.

3) Se você acompanha conteúdos de finanças pessoais regularmente, já deve estar “de saco cheio” de ouvir sobre a importância da disciplina. Bem, vou contribuir para deixar o seu saco um pouco mais cheio: As melhores ferramentas do mundo não funcionam sozinhas – é preciso inserir os dados nelas… E isso cabe a VOCÊ. Se você não usar, não vai funcionar, simples assim.

Tenha disciplina e seja consistente. Lembre-se de que não devemos buscar a perfeição, e sim a consistência.

A consistência, em algum momento, traz a perfeição.

Boa sorte!