“Os alquimistas estão chegando…estão chegando os alquimistas…” Jorge Ben Jor

Vivemos um momento único na história da humanidade. Em qualquer lugar reconhecemos grandes transformações acontecendo. Ainda não sabemos exatamente a cara do futuro que está emergindo. Mergulhamos não em uma transformação de Era, mas em uma Era de Transformações, com ciclos cada vez mais rápidos e contínuos em escala global; em um cenário de incertezas, imprevisibilidade e complexidade crescente. Eu a defino como uma Era de Infinitas Possibilidades, ao mesmo tempo…

E faço uma distinção entre transformações e mudanças. Entendo as mudanças como processos de melhoria, que ajudam a manter e/ou aprimorar as características ou funcionalidades de uma pessoa ou sistema. Por outro lado, as transformações tem uma característica bem distinta. Elas são disruptivas. Elas modificam a identidade e, assim, criam novas dinâmicas e experiências. Um bom exemplo é o nascimento de um filho. O casamento numa mais será o mesmo depois da chegada de uma criança. E terá que ser recriado.

Neste sentido, essa nova realidade de transformações produz grandes impactos tanto nas pessoas como em nossas instituições. Esse futuro incerto e cheio de possibilidades impõe novas formas de pensar e agir. Afinal, nossos modelos de organização e representação estão cada vez mais esgotados. Na política, por exemplo, os partidos e a democracia representativa não são mais suficientes para direcionar construtivamente os anseios de participação e fluxos da nova vida social.

As empresas sentem intensamente este impacto. Muitos problemas surgem ao mesmo tempo. A fidelização às marcas e o engajamento dos colaboradores, por exemplo, são desafios diários. E entendo que os líderes são os que sofrem o maior impacto em função do esgotamento dos modelos de negócio, das arquiteturas organizacionais e dos modelos de gestão, liderar e pensar. Toda essa agonia é a parte de um processo maior de evolução.

Neste mundo que se transforma rapidamente, então, qual é o futuro e o papel da liderança?

A grande tarefa da liderança, neste cenário, é criar as condições que permitam a organização a se manter em uma jornada contínua de transformação, ao mesmo tempo em que ajuda a manter a sua coerência, a conexão com sua essência. Estas condições de contínua transformação é o que encontramos em um ecossistema.

Um ecossistema está constantemente gerando novas formas de vida e regenerando formas existentes. Assim a grande tarefa da liderança em uma Era de Transformações é fazer a organização funcionar como um ecossistema. Aonde a empresa é vista como parte de um sistema maior e tem a função de devolver mais vida e valor ao seu entorno. E a liderança é a grande articuladora deste ecossistema ao construir containers e contextos para tratar temas complexos explorados de forma criativa e intuitiva através de um processo de inteligência coletiva baseado no talento das pessoas.

Esse desafio implica em uma evolução da liderança. Evoluir de um modelo de liderança empreendedora que controla e comanda a execução para um modelo de liderança generativa ou evolutiva. Isto é uma liderança que está mais consciente de que estamos evoluindo e que intencionalmente busca influenciar esse processo. São os novos alquimistas transmutando o chumbo em ouro, os desafios em valor. É a tradição antiga de metamorfosear, de transformar intencionalmente, o que quer que seja, em algo melhor. São líderes que incorporam e manifestam integridade, transparência, autenticidade e paixão em criar um mundo melhor e mais sustentável para todas as formas de vida.

Todavia, nosso sistema social e organizacional não está mais desenhado para apoiar as pessoas em suas jornadas de transformação. Para isso precisamos ajudar no despertar de qualidades e competências humanas, que estão atrofiadas e foram excluídas nos últimos séculos. Acredito que as organizações do século XXI possam ser os novos “vasos alquímicos” para essa metamorfose.

Assim a principal qualidade da liderança evolutiva é acreditar em um futuro melhor e na capacidade das pessoas co-criarem novas realidades. Além disso, fazer convites genuínos para enfrentar desafios relevantes em nome de um propósito maior. Construir, mobilizar e articular redes. Sustentar o espaço para que a tensão criativa possa levar a reflexão e o diálogo para níveis de compreensão e insights mais profundos que nos permitam prototipar novas soluções.

Como líderes evolutivos, precisamos aceitar o convite que a vida nos faz através das turbulências – tanto globais quanto locais, para convidar e anfitriar diversos stakeholders a construírem uma comum-unidade onde podemos imaginar novos caminhos evolutivos para a humanidade e o nosso planeta. Transformando líderes heroicos e carismáticos em líderes que sustentam espaços para que a luz de cada pessoa possa brilhar e oferecerem o seu melhor em uma vida cheia de significado.